IMAGENS ALEGÓRICAS DEUMA NAÇÃO EM

TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA

 

Heather Goodell - Tulane Univ.

 

 

Quase vinte anos depois do estabelecimento da República (1889-1894), durante a belle époque (1898-1914), Lima Barreto escreveu o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma fazendo uma alegoria do progresso da consciência nacional na sociedade brasileira através da vida do protagonista.[1] Estes dois períodos históricos diferenciam-se muito entre si. Os primeiros anos da República sofreram as pressões da instabilidade política, social e econômica; enquanto que o período da belle époque que os seguiu caracterizou-se por uma tradicional ordem neocolonial dominada pela patriarquia brasileira estabelecida. Para Barreto, a belle époque provou ser um momento propício para observar e alegorizar a fundação da República Brasileira.

A propaganda positivista e o ressentimento para como os políticos da elite depois da guerra do Paraguai, inspiraram os militares a criarem o “Clube Militar” durante a década de 1880. Encabeçado pelo militar Manuel Deodoro da Fonseca (1827-92), o Clube Militar procurou resistir à autoridade do ministério e dos políticos.[2] Em 15 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca colaborou com os partidários republicanos do Rio e liderou o exército para derrubar o ministério, e o imperador D. Pedro II. O imperador, juntamente como a família imperial, já tinha se tornado uma instituição fraca no Brasil e não se opunham às forças armadas unificadas.[3]

Como porta-voz e ex-chefe do Clube Militar, Deodoro da Fonseca continuou a conduzir um governo provisório republicano. Em 1891 estabeleceu-se uma nova assembléia constituinte e se elegeu Deodoro para a presidência, preservando assim o favor militar a despeito da sua incompetência evidenciada na política. Ao mesmo tempo, eles elegeram Floriano Viera Peixoto (1839-95) para a vice-presidência que logo substituiu o Marechal Deodoro, quando o mesmo foi obrigado a demitir-se do cargo da presidência (depois da sua iniciativa frustrada de dissolver o primeiro Congresso.) Os golpes tentados

por Peixoto e Deodoro fracassaram e com isso as tensões nacionais aumentaram, e para completar o quadro nacional nessa época, estourou uma guerra civil no Rio Grande do Sul e desatou uma revolta naval no porto do Rio de Janeiro. Ambas batalhas foram brutalmente combatidas até 1895 e contribuíram para o enfraquecimento da opinião pública sobre o novo governo. Estes e outros conflitos nacionais atormentaram a República nascente e foram exacerbados pela febril especulação econômica e pelo esbanjamento financeiro, ambos conhecidos como o Encilhamento. Needell observa como a queda financeira do Encilhamento determinou a opinião pública no princípio do período da República.

 

The name, in common use almost immediately was borrowed from race-course jargon for the saddling-up before the starting gun...

Nouveaux riches popped up in a milieu of unprecedented luxury consumption. But the aftertaste for many of the traditional elite was bitter. Many of them lost heavily, and the arrival of others was resented.[4]

 

         Durante os primeiros anos da República quando a autoridade financeira e a posição política das elites foram questionadas, o poder político e o interesse da classe média se expressou pela primeira vez. Contudo seus sonhos de revolução e reforma tornaram-se meras lembranças quando as elites regionais assumiram o poder no governo outra vez. Com a eleição de Campos Sales em 1898, a sociedade carioca abandonou seu legado revolucionário e abraçou as convenções estéticas da belle époque.

Apesar da desordem no início da República, a retórica republicana emblemada com o lema “Ordem e Progresso” abrandava parcialmente o caos e o oportunismo político. Estas teorias “iluminadas” de liberalismo e democracia, importações européias que a República exaltou e naturalizou, serviram para desviar a atenção popular da realidade da corrupção e paternalismo governamental. O discurso republicano, dirigido em volta de uma idéia ocidental de “modernização”, criou um manto ideológico que ocultou a infra-estrutura atrasada e patriarcal embutida na história do Brasil.[5]

É exatamente este discurso nacional “iluminado” que Barreto representa em Triste Fim de Policarpo Quaresma. Ao narrar a vida de um militar, Barreto escolhe de uma maneira relevante o título de “Major” para seu protagonista dando a Policarpo uma imagem que na verdade só exercerá após alistar-se no exército de Floriano, na guerra civil. Da mesma maneira, o amigo de Policarpo, o General Albernaz, nunca havia tido nenhuma experiência de combate (nem queria), mas ele sempre mantinha o prestígio que seu título lhe fornecia todo o tempo que serviu como funcionário público.

Como membro do povo, uma relação ao estilo militar foi comum no Brasil.[6] A classe média favorecia as escolas técnicas militares como opção profissional para seus filhos que desejavam um diploma superior e assegurar uma boa posição social. Mais que instituições para a formação militar, o principal fator atrativo destas escolas foi a gama abrangente de instrução científica que elas proporcionaram aos seus estudantes, oferecendo-lhes acesso a diplomas europeus e norte-americanos de elevado valor material e técnico. “These students... absorbed the scientism diffuse in contemporary European thought and commonly saw themselves as trained servants of their nation’s future – selfless, embattled agents for the pátria’s ‘modernization.’ “[7]

Policarpo compartilha esta ideologia e funciona como uma figura alegórica personificando o surgimento da consciência nacional no início da República. No decorrer do romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, Barreto retrata várias imagens da construção da nacionalidade no Brasil e o descompasso radical que acontece quando estas representações enfrentam a realidade sócio-histórica durante os primeiros anos da República. Ele representa este jogo de construções sociais e históricas através da figura de Policarpo Quaresma como alegoria da nação brasileira.

À beira da loucura, o patriotismo ardente de Policarpo Quaresma alimenta-se dos mitos nacionais que definem sua busca existencial de sentido no mundo. Estes mitos encaixam-se aproximadamente em três categorias: a terra fértil, o índio como origem da vida brasileira, e o brasileiro como dócil e pacífico.[8] A maneira pela qual estes mitos vêm à tona episodicamente ao longo do romance para serem desmascarados no final do livro, manifesta-se através do tropo literário da frutificação. Evidenciado na etimologia do nome “Policarpo Quaresma”, este tropo revela a função alegórica do romance devido a ascendência repetitiva e progressiva das ações ufanistas do protagonista.

O uso da alegoria na obra de Barreto pode ser compreendido através das teorias de Walter Benjamin e Paul de Man.[9] Benjamin define a alegoria em contraste com o símbolo, dois conceitos literários que às vezes têm sido considerados sinônimos. Para ele, a literatura barroca serve como modelo para ilustrar e distinguir os dois conceitos. A natureza terrestre e material da estética barroca não se rende às mesmas interpretações transcendentais que os leitores posteriores (i.e. os românticos) buscavam. A qualidade iminente e mundana da escritura barroca não conduz o narrador a conclusões absolutas nem reflete uma essência eterna ou princípio fundamental. Ao contrário, como Benjamin e outros críticos demonstram, “this impotence is not deprived of meaning, and it demands to be itself allegorized, i.e. read as ruins of a lost, impossible totality.”[10]

Numa reconsideração da literatura barroca no século XX, Benjamin mostra como a aversão dos românticos à alegoria e sua preferência pelo símbolo modificou o entendimento geral dos termos. Benjamin cita Goethe como o autor mais conhecido no Romantismo alemão:

 

There is a great difference between a poet’s seeking the particular from the general and his seeing the general in the particular. The former gives rise to allegory, where the particular serves only as an instance or example of the general; the latter, however, is the true nature of poetry.[11]

 

Segundo Benjamin a iminência da alegoria que Goethe desdenha aqui se complica mais pelo tempo, dando lugar inevitavelmente à fragmentação e a decomposição. Benjamin descreve a dinâmica deste processo no drama trágico alemão.

 

When, as is the case in the Trauerspiel, history becomes part of the setting, it does so as script. The word ‘history’ stands written on the countenance of nature in the characters of transience. The allegorical physiognomy of the nature-history, which is put on stage in the Trauerspiel, is present in reality in the form of the ruin. In the ruin history has physically merged into the setting. And in this guise history does not assume the form of the process of eternal life so much as that of irresistible decay.[12]

 

É o tempo que define a alegoria, e a distancia do símbolo. Enquanto o símbolo é transcendental e eterno, a alegoria é transitória e dinamicamente progressiva. A qualidade da progressão liga alegoria à história.

Antes de discutir os mecanismos do tropo de frutificação em Triste Fim de Policarpo Quaresma, gostaria de ressaltar alguns aspectos que ofuscam o entendimento das funções literárias da natureza e do símbolo. Os elementos da natureza são muitas vezes percebidos em relação à representação simbólica, e.g. símbolos como o sol representando uma idéia de vida eterna, etc. Contudo, se consideramos o análogo físico da alegoria como uma ruína conforme a teoria de Benjamin e seu conceito da história como um processo de “irresistible decay”, compreenderemos melhor como se pode conceber a natureza alegoricamente. Com certeza, existem inumeráveis alegorias evocando a morte e a decadência na natureza. No entanto, mais importante é a omissão freqüente da essência iminente da natureza no símbolo que é definido pelo ciclo da vida e da morte. Por exemplo, na criação do conceito comum da árvore como símbolo da vida eterna existe um esquecimento implícito de uma existência transitória que se renderá ao conceito de sua qualidade transcendental como um símbolo. A árvore é necessariamente limitada a um período temporal de florescimento e crescimento entregando-se depois a seu próprio fim. Os elementos naturais são inerentemente transitórios, mundanos, iminentes e não transcendentais. O fornecimento do símbolo com qualidades eternas não reflete sua transcendência inata. Na verdade, reflete nossa visão da natureza no momento imediato sem lembrar os efeitos que o tempo sempre lhe outorga. Ao perceber o princípio determinante do tempo na natureza, podemos entender este processo melhor assim como o ciclo da vida que perpetuamente se entrega a morte que o espera.

Em Triste Fim de Policarpo Quaresma, o tropo de dar fruto integra-se de várias formas no texto para aludir ao florescimento e à desvalorização final do conceito de Policarpo da nação brasileira, baseado nos mitos nacionais. Como figura central no romance, o protagonista gira em torna do texto revelando os sentidos diversos que imbui a narrativa de densidade no conjunto. Começando com a etimologia do seu nome, “Policarpo Quaresma”, definido no Nôvo Dicionário Brasileiro Melhoramentos, encontramos um “trampolim semântico” através do qual podemos conectar alguns temas narrativos.

 

policarpo, adj. (poli+ gr. karpos). Bot. 1. Que frutifica várias vêzes. 2. Que tem ou produz muitos frutos.[366]

 

quaresma, s. f. (l. quadragesima). 1. Liturg. Período de quarenta dias, compreendido entre quarta-feira de cinzas e domingo de páscoa, em que a Igreja Católica honra com jejuns, abstinência de carnes e outros sacrifícios a paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo;... 2. Bot. Espécie de coqueiro. 3. O fruto dêsse coqueiro. 4. Bot. Nome de diversos arbustos e árvores melastomatáceas, cujas flôres, roxas ou purpúreas, desabrocham durante a quaresma; também chamados quaresmeira...[509]

 

Carregadas com sentidos múltiplos, estas palavras que juntas formam o seu nome se manifestam em maneiras diferentes no romance. Primeiramente, se pode destacar o elemento terrestre e botânico dos nomes como aspecto importante na construção de Policarpo da idéia indigenista da nação. Esta referência lembra os romances românticos no Brasil, particularmente O Guarani e Iracema de José de Alencar [1829-72], que exaltou na sua prosa o índio como origem da sociedade e nacionalidade brasileira. Nas suas pesquisas para descobrir um sentido totalizante da nação brasileira, Policarpo se refere ao mito da terra fértil como verdade indiscutível representada nos seus livros coloniais e sua defesa da grandeza do rio Amazonas[13].

 

Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do “seu” rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo.[14]

 

Através de seu nome, “Quaresma” (flor da quaresmeira e também uma espécie de coqueiro, ambos pertencentes a flora brasileira), ele forma parte da mesma paisagem e natureza que procura conhecer. Com outra alusão colonial, esta idéia evoca a percepção dos colonizadores em relação aos nativos do Novo Mundo vistos como parte da paisagem natural. Para complementar, o narrador afirma a conexão de Policarpo à nação como um todo.

 

Não se sabia bem onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paixão não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves – era tudo isso, junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro.[15]

 

Não obstante, a qualidade que rende esta metáfora natural bastante interessante é sua progressão dinâmica (i.e. sua temporalidade) como tropo no romance. Este componente revela-se pelo adjetivo “policarpo” (também o primeiro nome do protagonista) que conota a idéia da repetição inerente no ciclo da vida. É exatamente esse aspecto que determina o status alegórico do romance. Policarpo Quaresma alegoriza os componentes fundamentais do nacionalismo durante os primeiros anos da República por suas realizações, muitas vezes exageradas e imperturbáveis, dos mitos nacionais. Ao rejeitar o impulso realista de representar pela verosimilitude e o mimetismo, Barreto destaca os segundos sentidos (alegóricos) das ações de Policarpo criando um certo effet de l’irréel.[16]

O tropo da frutificação aparece explicitamente na retórica do narrador quando fala dos interesses folclóricos do protagonista.

 

...é preciso não esquecer que o major, depois de trinta anos de meditação patriótica, de estudos e reflexões, chegava agora ao período da frutificação. A convicção que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro país do mundo e seu grande amor à Pátria eram agora ativos e impeliram-no a grandes cometimentos. Ele sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir, de obrar e de concretizar sua idéias.[17]

 

Aqui o narrador descreve o impulso inicial de Policarpo de concretizar suas teorias ufanistas na realidade sócio-histórica. Sua consciência florece durante várias ocasiões até seu declínio no vazio fundamental dos mitos nacionais e a impossibilidade de uma identidade nacional totalizante.

Uma vez que “policarpo”, segundo a definição prévia, denota o adjetivo: “1. que frutifica várias vêzes” e/ou “2. que tem ou produz muitos frutos”, pode-se compreender estas cenas como os frutos da sua consciência nacional. Baseadas nos mitos que decorrem da história brasileira, as idéias e as construções da nação que Policarpo manifesta, amadurecem e ocasionam episódios de expressões emblemáticas destes mitos. Estes episódios decalcam a florescência e a manifestação da sua fé nas construções imaginárias, que com o tempo logo murcham para revelar a nudez de sua relação com a realidade.

O florescimento da consciência nacional de Policarpo no romance corresponde, de maneira similar, à florescência da consciência dos cidadãos brasileiros durante a transição e o estabelecimento inicial da República. Nesta época muitos brasileiros da classe média acreditavam que o afastamento do trono e do ministério, juntamente com a instalação da República, provocaria transformações das práticas adotados no passado colonial, trazendo uma nova nação modernizada destinada à independência da Europa e um novo status na economia global. Esta nova geração associou o passado com o controle paternalista das elites e, para eles, essa transformação simbolizou a possibilidade de um futuro democrático. Contudo, apesar do acúmulo quase instantâneo de riqueza de alguns brasileiros da classe  média e baixa durante o Encilhamento, a elite tradicional geralmente manteve seu status e autoridade. Em 1898, o presidente conservador Campos Sales tomou posse e isso fez com que o país regressasse às mãos da hegemonia da elite.

No primeiro capítulo, Barreto representa o broto da consciência nacional de Policarpo pela metáfora do jardim. A semente do nacionalismo tinha sido plantada e Policarpo percebe o desabrochar do que é unicamente brasileiro. Já em busca de uma alma nacional elusiva, Policarpo convida Ricardo Coração dos Outros a sua casa para que ele lhe ensine como cantar modinhas e tocar violão como expressão de sua paixão nacionalista. Depois do jantar, Policarpo leva Ricardo para ver seu jardim. O narrador o descreve:

 

Era uma maravilha; não tinha nem uma flor... Certamente não se podia tomar por tal míseros beijos-de-frade, palmas-de-santa-rita, quaresmas lutulentas, manacás melancólicos e outros belos exemplares dos nossos campos e prados. Como em tudo o mais, o major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada de rosas, de crisântemos, de magnólias – flores exôticas; as nossas terras tinham outras mais belas, mais expressivas, mais olentes, como aquelas que ele tinha ali.[18]

 

Aqui se apresenta “quaresma” de uma maneira emaranhadamente enraizada no contexto nacional. Porém, com adjetivos como “míseros”, “lutulentas” e “melancólicos”, o narrador contradiz o zelo exagerado de Policarpo para os produtos da terra brasileira. A natureza melancólica destas plantas é particularmente significante como uma característica que atormenta Policarpo em várias formas ao longo do romance. É sempre depois do fracasso de suas expressões de patriotismo que ele percebe as ruínas de suas construções imaginárias e se torna oprimido e melancólico.

Enquanto representa uma certa noção de “pureza” natural/nacional no jardim ao cultivar só plantas “brasileiras” e não misturar os genes com “flores exóticas”, a retórica desta metáfora se recusa a tais impossiveis absolutos. Descritas como “lutulentas”, as plantas “quaresmas” e a própria figura de Policarpo se subentendem como produtos da miscegenação que têm povoado o Brasil. Este adjetivo se deriva da palavra latina lutulentu que significa “sujo de lodo, lamacento; sujo.”[19] Assim, é irônico que a palavra “quaresma” relaciona-se a “imundície”, embora o personagem de Policarpo Quaresma se destaque como porta-voz do nacionalismo e dos ideais da “autenticidade” e “pureza” nacional (manifestados em seu recuso do que é estrangeiro). Embora que o nacionalismo como ideologia geral tenha invocado freqüentemente algum tipo de superioridade baseado numa idéia de “pureza” nacional e/ou racial, particularmente na Europa e em alguns países sul-americanos, este conceito é especialmente problemático e “fora do lugar” no Brasil onde a hibrídez e a influência multicultural estão tão destacadas. Assim, Barreto prefigura algumas das considerações modernistas ao ressaltar a impossibilidade de tal “pureza” na sua sátira do discurso nacional.

A escritura alegórica tende a fragmentar, revelando as construções e negando uma interpretação da sua criação sem emendas. Não celebra uma totalidade simbólica ou essência eterna mas lamenta sua impossibilidade no texto.[20] “The allegorical personification can be seen to give way in favour of emblems, which mostly offer themselves to view in desolate sorrowful dispersal.”[21]Se analisarmos a alegoria em termos de nacionalismo, podemos ver como a representação alegórica desataria a síntese da identidade nacional que sua retórica naturalmente procura estabelecer. Este é o processo que Barreto esboça em Triste Fim de Policarpo Quaresma. A busca de Policarpo e sua representação etnográfica das origens nacionais lhe deixam taciturno e descontente. Ao descrever a impossibilidade da identificação simbólica através dos mitos nacionais, a figura de Policarpo serve como alegoria de uma consciência nacional e assim ela "designates primarily a distance in relation to its own origin, and, renouncing the nostalgia and the desire to coincide, it establishes its language in the void of this temporal difference."[22] Contudo, esta mudança se desvenda só como uma resignação final e um amadurecimento do protagonista depois de uma série de tentativas de unir sua idéia dos mitos nacionais com aqueles de sua realidade.[23]As ações e idéias com que Policarpo se engana, aparentemente insignificantes no começo do romance, como aquelas no princípio da República, crescem desproporcional e incontrolavelmente até se esgotar, revelando descaradamente sua existência contraditória no final. Como postula de Man, este crescimento e aceleração ao longo do texto é inerente a ironia.[24] As ações irônicas e o comportamento de Policarpo transformam-se de litotes a manifestações hiperbólicas de seu desejo de encontrar um sentido de autenticidade nos mitos nacionais. Este processo é representado repetidamente na narrativa através de florescimentos múltiplos da sua consciência e desilusão final dos mitos nacionais[25].

A ironia é inextricavelmente alegórica através da sua relação com o tempo. Ao passo que para o símbolo, o tempo é contingente,

 

in the world of allegory, time is the originary constitutive category... it remains necessary, if there is to be allegory, that the allegorical sign refer to another sign that precedes it. The meaning constituted by the allegorical sign can then consist only in the repetition (in the Kierkegaardian sense of the term) of a previous sign with which it can never coincide, since it is of the essence of this previous sign to be pure anteriority.[26]

 

Ao exigir a existência de uma anterioridade inatingível, a alegoria e a ironia implicam um certo vazio entre o signo e o significado que nega ser transposto através de um processo de identificação. "Irony divides the flow of temporal experience into a past that is pure mystification and a future that remains endlessly caught in the impossibility of making this knowledge applicable to the empirical world..."[27]Aliás, a ironia se distancia de seu objeto num processo de dédoublement que engendra uma consciência determinada por reflexões no passado.[28] Assim, é importante que Policarpo reflita e medite muito sobre sua vida e seu contexto sócio-histórico. Outros personagens, como Ricardo Coração dos Outros, seriam incapazes de reconhecer objetivamente a ironia de suas ações. Coração dos Outros é a antítese de Policarpo, indicado em seu nome "dos Outros", que revela sua diferença fundamental de Policarpo. De fato, ele não experimenta o tipo de busca existencial para um sentido ou uma preocupação com entidades fora dele mesmo. Este aspecto é apresentado numa cena irônica durante o começo de uma revolta naval no Rio no qual Ricardo dedilha seu violão quase sem reparar nos tiros de canhões e na importância histórica do momento.

 

Gostava de passar assim dias, metido em si mesmo e ouvindo o seu coração. Não lia jornais para não distrair a atenção do seu trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de ser mais uma vitória para ele e para o violão estremecido.

... ouviu um tiro, depois outro, outro... Que diabo? Pensou. Hão de ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a cantar os lábios de Carola, onde encontrava a ilusão que adoça a vida...[29]

 

Para Ricardo, não há distância entre ele e sua pessoa empírica. Inabalavelmente focalizado em si mesmo, ele vive o momento sem projetar seus pensamentos no futuro ou no passado. Em contraste, a obsessão de Policarpo com um passado mistificado e um futuro incerto atinge seu dénouement numa carta para sua irmã onde sua incerteza e triste desilusão inspira um apelo angustiado: "Como acabarei? Como acabarei?"[30]

Num caso extremo, a ironia conduz ao apagamento do eu empírico resultando na loucura. Assim, a obsessão de Policarpo de ser algo mais que ele não é, de ser o brasileiro "autêntico", resulta ironicamente no esquecimento do brasileiro real que ele é. "Absolute irony is a consciousness of madness, itself the end of all consciousness; it is a consciousness of a non-consciousness, a reflection on madness from the inside of madness itself." É este deslize na folie lucide que Policarpo experimenta no manicômio depois de sua primeira expressão frustrada de orgulho nacionalista, sua tentativa de estabelecer o Tupi Guarani como língua nacional. O manicômio se chama "Praia das Saudades" articulando desta maneira a conexão vis-à-vis alegoria de melancolia, saudade e loucura.[31] Como os sonhos e as ilusões de Policarpo se desagregam lentamente, a ironia e a inutilidade de sua vida tornam-se patentes, a tal ponto que ele cai na depressão."Saiu o major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as coisas triste de ver, no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais depressora e pungente"[32].

Como protagonista e principal figura narrativa, Policarpo Quaresma alegoriza o imanente, o mundano e a base inatingível da nacionalidade brasileira. Sua trajetória através do romance corresponde à ascensão de uma identidade nacional no Brasil e ilustra seu surgimento nas fases iniciais da República. Com sonhos de uma nação nova e “moderna” que poderia integrar e representar seu povo enquanto preservasse seu passado único, a classe média e baixa e os ideólogos revolucionários acreditaram que a República seria a solução para seus problemas. O Brasil orientava-se pelos Estados Unidos e Europa ocidental utilizando-os como modelos na sua reforma de governo e das instituições sociais baseando-se em teorias de modernização e iluminismo. Porém, a posição colonial e econômica impelida pela indústria agrícola fundada na escravidão era um elemento embutido que definiu sua estrutura social a qual não poderia ser (ou não queria ser) transformada facilmente. Da mesma forma que Policarpo, com sua luta para definir ele mesmo e a sua nação através de um passado mitificado, foi forçado a reconhecer a realidade do presente menos ilustre, os idealistas da República também experimentaram uma confrontação com a realidade sócio-histórico quando sua habilidade de dirigir o futuro da nação lhes escapuliu. Dessa maneira, Lima Barreto cria uma alegoria poderosa deste processo em Triste Fim de Policarpo Quaresma através do tropo da frutificação e da desilusão final de sua consciência nacional.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

AVELAR, Idelber. The Angel History's Forged Signature: The Ruins of Memory and the Task of Mourning in a Brazilian Postdictatorial Novel. Modern Fiction Studies, vol. 44, Spring, 1998.

BARRETO, Lima. Triste Fim de Policarpo Quaresma. Intro. Carmen de Souza, São Paulo: Editora Ática, 1999.

BENJAMIN, Walter. The Origin of German Tragic Drama. Trans. John Osborne, Intr. George Steiner, London; New York: Verso, 1998.

BURNS, E. Bradford. A History of Brazil. New York: Columbia University Press, 1980.

CLIFFORD, James. Writing Culture: The Poetics and Politics of Ethnography. Ed. James Clifford e George E. Marcus, Berkeley: University of California Press, 1986.

COURTEAU, Joana. Brasil-Brazil. Providence, R.I.: Center for Portuguese and Brazilian Studies, Brown University, 3:3, 1990.

DE MAN, Paul. Blindness and Insight: Essays in the Rhetoric of Contemporary Criticism. Intro. Wlad Godzich, London: Routledge, 1993.

MARX, Anthony W. Making Race and Nation: A Comparison of South Africa, the United States, and Brazil. Cambridge, U.K., New York: Cambridge University Press, 1998.

NASCENTES, Atenor. Dicionário Etimológico Da Língua Portuguesa. Prefacio W. Meyer Lubke, F. Alves: Rio de Janeiro, 1932.

NEEDELL, Jeffrey D. A Tropical Belle Époque: Elite Culture and Society in Turn-of-the-Century Rio de Janeiro. Cambridge; New York: Cambridge University Press, 1987.

NÔVO DICIONÁRIO Brasileiro Melhoramentos, Org. Adalberto Prado e Silva, São Paulo, 1969.

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1977.



[1] Refiro-me a A Tropical Belle Époque de Jeffrey D. Needell [1987:10] pelas suas descrições dos eventos que anticiparam a belle époque.

[2] BURNS, 1980: 284-89.

[3] Anthony MARX [1998: 158-9] observa o simbolismo que há na transição do Império à República durante o processo de abdicação do trono de D. Pedro II. Antes de zarpar para Europa, comemoraram sua abdicação com uma celebração para D. Pedro II na Ilha das Cobras na Bahia da Guanabara no Rio de Janeiro. A cordialidade deste gesto significativo demonstrou a habilidade unicamente brasileira de manter harmonia e evitar confrontação diante da mudança.

[4] NEEDELL, 1987: 12.

[5] Veja Roberto SCHWARZ. Idéias fora do lugar. In: Ao Vencedor As Batatas para uma explicação perspicaz desta dinâmica no Brasil.

[6] NEEDELL, 1987: 8.

[7] Ibid.

[8] Concordo com as três categorias dos mitos que Joana Courteau descreve em seu ensaio “The Demise of Triste Fim de Policarpo Quaresma.”

[9] Refiro-me a The Origin of German Tragic Drama de Walter Benjamin e Blindness and Insight: Essays in the Rhetoric of Contemporary Criticism de Paul de Man.

[10] AVELAR, 1998: 186.

[11] GOETHE em BENJAMIN, 1998: 177-78.

[12] Benjamin, 1998: 177-78.

[13] Veja COURTEAU, 1990.

[14] BARRETO, 1999: 23.

[15] Ênfase minha. [Barreto, 1999: 22].

[16] Refiro-me parcialmente à Introdução de George Steiner em [BENJAMIN, 1998: 20].

[17] Ênfase minha. [Barreto 1999: 30]

[18] Ênfase minha. [Barreto 1999: 27]

[19] Dicionário Etimológico Da Língua Portuguesa, 1967: 1447.

[20] AVELAR, 1998.

[21] BENJAMIN, 1998: 186

[22] DE MAN, 1993: 207

[23] "The ironic, two-fold self that the writer or philosopher constitutes by his language seems able to come into being only at the expense of his empirical self, falling (or rising) from a stage of mystified adjustment into the knowledge of his mystification." [DE MAN, 1993: 214] Clifford também discute o processo de "coming of age" (amadurecimento) em termos etnográficos em seu capítulo, "On Ethnographic Allegory."

[24] O conceito e a definição de ironia que emprego aqui deriva-se principalmente do discurso sobre o tropo de ironia de Paul de Man em “The Rhetoric of Temporality.” [1993: 215]

[25] De Man explica esta deturpação: “the target of their [‘de-mystified texts’] irony is very often the claim to speak about human matters as if they were facts of history. It is a historical fact that irony becomes increasingly conscious of itself in the course of demonstrating the impossibility of our being historical. In speaking of irony we are dealing not with the history of na error but with a problem that exists within the self.” [1993: 211].

[26] Ênfase de DE MAN [1993: 207].

[27] DE MAN, 1993: 222.

[28] De Man descreve a ação de dédoublement como um processo de consciência que separa o mundo humano do mundo não-humano.

[29] BARRETO, 1999: 127.

[30] DE SOUZA em BARRETO 1999: 174.

[31] A referência do narrador à loucura pode ser vista como autobiográfica porque Lima Barreto também experimentou a loucura e entrou num manicômio durante um período da sua vida. [N.E. em Barreto 1999: 63]

[32] BARRETO, 1999: 74.